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VIVA O SALVADOR. VIVA A LUÍSA!

22/05/2017

Pode uma canção mudar o mundo?

Cá em casa vibrámos com o festival: o Salvador e a Luísa a devolver a música como ela é, sem manias, falsas intenções ou competição mesmo no centro de uma das maiores competições “europeias”. Eles deram-nos “só” música e com ela um dos momentos mais enternecedores que a televisão já assistiu. Os vizinhos gritavam pelo Benfica e nós torcíamos pelos irmãos Sobral. Venceu a qualidade, a simplicidade, e o despojamento. Cá em casa, perante a surpresa do resultado havia também muito orgulho e gratidão não só por Salvador, por Luísa e pelo momento, mas por sermos tantos a Amar Pelos Dois e a celebrar o que de melhor se faz por cá.  E isto num dia em que quase se reergueu o Portugal dos três éfes, mas afinal não. Um volte-face depois e foi impossível não sentir redenção quando se celebrou uma canção singela da mesma forma que se celebram tantas vezes os campeonatos nacionais de futebol. Amaram pelos os dois todos os adeptos do Benfica no Marquês e em uníssono encheu-se  também o Aeroporto da Portela. Mas a mais bonita consequência ainda estava para vir: na segunda-feira o casal da papelaria estava a cantar a canção quando eu entrei, juntei-me a eles e cantámos os três; à tarde os meus alunos cantaram a canção da Luísa a plenos pulmões e isso deu azo a uma conversa sobre o amor, a música, e como transparecer as emoções com a voz, com as palavras, e com o corpo. Para quem não sabe: não é todos os dias que se tem uma conversa assim no primeiro ciclo do ensino básico, muito menos é-lhes quotidiana a vontade de ouvir canções com cê grande.  O meu trabalho ali é esse: mostrar que a música existe em mais lugares, formas e feitios e que os refrães das canções podem ser bem mais do que “olha a explosão / quando ela bate com a bunda no chão” — porque é isso que eles escutam diariamente: música descartável, tal como nos disse o Salvador.  O resto da aula passou-se a ouvir, a cantar e a trocar canções: do “Ele e Ela” cantado pela Madalena Iglésias ao Samuel Úria, do Sérgio Godinho ao Carlos Paião, da Ana Moura aos Clã. O que me faz pensar: para quando um Plano Nacional de Música?

Dizem que o lobo perde os dentes mas não o costume o que talvez justifique que no dia seguinte até nas triagem das urgências se tenha cantarolado A canção — o que foi um erro, vejo agora à distância, pois estou segura de ter passado a falsa ideia de não precisar de uma pulseirinha de outra cor. Desde então é tudo uma névoa, comigo mergulhada em doses de analgésicos capazes de pôr elefantes a dormir. Eu estou bem e a história serve apenas para dizer que não vivi desde esse dia — é como se o tempo não tivesse existido. Para mim o Festival da Canção passou-se há 3 dias e amanhã é quarta-feira da semana passada. Mas não é: o planeta terra continuou a rodar depois daqueles minutos de comoção colectiva. Quando li as notícias da semana estava ainda segura de estar a delirar: os irmãos Sobral foram saudados na Assembleia da República e aproveitaram o momento para abrir a porta a uma conversa muito necessária e saudável sobre orçamentos para a cultura.

É mesmo preciso falar disto. Disto e do que significa ser músico ou outra qualquer profissão artística em Portugal: falar do amor à camisola, da instabilidade e dificuldade da “profissão”, de tudo o que é feito até ter uma obra concluída, do desejo que se tem de a fazer chegar às pessoas, e da estranha sensação que é parecer que não se consegue chegar à pessoas por haver um muro invisível — o tal de que fala Salvador quando diz que a música não é tocada nas rádios. E, visto que o outro —aquele pudor bafiento de não gostar do que cá se faz — já está morto e enterrado, não se compreende que este muro invisível ainda exista. Não há, portanto, motivos para que parte da cultura portuguesa se mantenha à parte do seu público quando o seu público a quer toda para si.

Como mandar abaixo o muro? A RTP deu um exemplo extraordinário ao abrir espaço a novos compositores e intérpretes, e é mesmo para usar o cliché: são algumas das vozes desta geração.  Digo algumas, porque há muitas mais, e não é só nas canções. Mas veja-se o efeito dominó que uma só acção criou. Há mais exemplos. Conseguem imaginar o que será o futuro quando este exemplo for seguido? Porque eu consigo e fico grata por ter representantes assim.

Nas outras notícias soube que a criatura Temer foi apanhada a incentivar subornos e adivinha-se já um ‘impeachment’ e mais a norte os advogados da casa branca estudam também o cenário de destituição da outra criatura execrável; e não, nada disto é um delírio. Confesso que estava à espera de ler que a Europa tinha finalmente deixado de ser cobarde perante a crise de refugiados. É preciso pedir ao Salvador e à Luísa para dar um pulo ali ao Parlamento Europeu e acordar o coração à Europa?

O que é que vocês acham: pode uma canção mudar o mundo?

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MERGULHO EM LOBA NO SPOTIFY!

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E no dia 25 de Abril o “Mergulho Em Loba” é finalmente liberado no mundo digital!  Versão com as Suítes na íntegra para que o “shuffle” não troque a ordem.

Como diz no cd: “Para melhor fruição aconselha-se vivamente a escuta deste disco na ordem de temas apresentada, e num equipamento que não acrescente silêncio entre as faixas.

Mais um acaso bonito para o meu livro das coincidências, pois o “Meu Caro Amigo Chico” também chegou a final cut no dia 25 de Abril de 2012.

É vosso!

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O Agente Provocador

Fui provocada pelo meu homónimo: João Vaz Silva, também conhecido por exímio agente provocador que, dada a sorte que me acompanha, é também meu agente.O sorriso largo é a prova clara de que estou acompanhada (e fotografada) por quem mais alegria musical tem dado à minha vida de há uns tempos para cá. A boa disposição e o à-vontade que atravessam a conversa são mérito da brilhante faceta radialista do João!
E o nosso retrato é do dono da casa-estúdio: Luis Nunes.
Convosco esta e outras conversas em: O Agente Provocador.


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